A periodontite, uma infecção crônica e inflamatória que afeta as gengivas e os ossos que sustentam os dentes, é uma condição comum e representa muito mais do que apenas um problema bucal. Ela é um fator de risco significativo e independente para o desenvolvimento e agravamento de doenças cardiovasculares (DCV), que são a principal causa de morte em todo o mundo.
1. Entendendo a Periodontite
A periodontite começa com a acumulação de placa bacteriana e tártaro nos dentes. Se não tratada, essa inflamação inicial (gengivite) progride para a periodontite, onde:
• As bactérias e a resposta inflamatória do corpo começam a destruir os tecidos que suportam os dentes (gengiva, ligamento periodontal e osso alveolar).
• Formam-se “bolsas” periodontais entre os dentes e as gengivas, que servem como reservatórios para bactérias patogênicas.
• A infecção é crônica, e a presença constante de bactérias e mediadores inflamatórios pode se espalhar para outras partes do corpo.
2. A Conexão com Doenças Cardiovasculares
A boca e o coração podem parecer distantes, mas a ligação entre periodontite e DCV é mediada por dois mecanismos principais:
a) Disseminação Bacteriana (Bacteremia):
As bactérias presentes nas bolsas periodontais podem entrar na corrente sanguínea, especialmente durante atividades como mastigar, escovar os dentes ou procedimentos odontológicos.
• Ação: Uma vez na corrente sanguínea, essas bactérias (ou seus subprodutos) podem viajar para outras partes do corpo, incluindo as artérias e o coração.
• Consequência: Elas podem contribuir para a formação de placas ateroscleróticas (endurecimento e estreitamento das artérias), ou agravar placas já existentes, aumentando o risco de eventos como infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (AVC). Em casos mais raros, podem causar endocardite bacteriana em pacientes suscetíveis.
b) Inflamação Sistêmica:
A periodontite é uma doença inflamatória crônica. O corpo reage à infecção liberando uma cascata de mediadores inflamatórios (como citocinas, proteínas C-reativas, etc.).
• Ação: Esses mediadores inflamatórios não ficam restritos à boca; eles entram na circulação e elevam o nível de inflamação em todo o corpo.
• Consequência: A inflamação sistêmica é um fator chave no desenvolvimento e progressão da aterosclerose. Ela pode danificar o revestimento dos vasos sanguíneos, promover a formação de coágulos e desestabilizar as placas ateroscleróticas, tornando-as mais propensas a se romper e causar um evento cardíaco.
3. Por Que o Risco é Maior em Idosos?
A população idosa é particularmente vulnerável a essa interação por várias razões:
• Prevalência: A periodontite é mais comum e, frequentemente, mais avançada em idosos devido a anos de exposição a fatores de risco, menor acesso a cuidados preventivos ou dificuldades na higiene bucal.
• Comorbidades: Idosos geralmente apresentam múltiplas comorbidades, como diabetes, hipertensão, colesterol alto, que já são fatores de risco para DCV. A periodontite adiciona uma carga inflamatória e infecciosa extra a um sistema já comprometido.
• Respostas Imunológicas: O sistema imunológico pode estar menos eficiente em idosos (imunossenescência), tornando-os mais suscetíveis a infecções e a respostas inflamatórias desreguladas.
• Medicações: Certos medicamentos usados por idosos (ex: para pressão arterial) podem afetar a saúde bucal, alterando a salivação ou promovendo o crescimento gengival, o que pode piorar a periodontite.
• Dificuldade de Acesso/Cuidado: Muitos idosos podem ter limitações físicas, financeiras ou cognitivas que dificultam o acesso e a manutenção de uma higiene bucal adequada e de consultas odontológicas regulares.